sexta-feira, 18 de março de 2011

E assim foi a minha infância, quando era apenas apelidado de Bonifácio.
Depois veio a melhor fase da minha vida, quando me mudei para Lisboa com o meu dono. A maior metrópole do país ao meu dispor, onde a cada esquina havia gatas cada vez mais belas, cada uma com uma diferente cor de pêlo, mas todas com pêlo muito mais suave e bigodes muito mais sensuais e maiores que os meus.
Mas nesta cidade para ir ter com as minhas gatinhas tinha de atravessar rios de pedra por onde passavam caixotes com rodas, puxados por cavalos. Parecendo que não, até para um gato era perigoso atravessar. Outra desvantagem desta metrópole em relação à maravilhosa Quinta de Santa Olávia era o cheiro nauseabundo a urina nos becos perto dos botequins.
Pode dizer-se que o nome D. Bonifácio de Calatrava, que soa muito bem ao ouvido felino, me ajudou muito nas empresas amorosas, e enquanto conversava com as minhas conquistas sobre os mais variados assuntos, desde o Romantismo até à Geração de 70, passava um rato a 50 metros de nós, e, com o meu ouvido apurado, ouvia os passinhos daqueles pés pequeninos e aquele barulho irritante que fazem com a boca, saltava para cima dele e oferecia à minha dama um belo jantar.
Agora, de volta à Quinta de Santa Olávia, vai ser difícil continuar com essa vida, mas vou tentar não envelhecer e conhecer mais umas gatas campestres.
André Rosado, 11.º A
Na parte de trás do quintal estava um grande alpendre. Entrei pela porta das traseiras que dava até à cozinha. O fogão a lenha ainda fumegante, as frias bancadas de mármore, salpicadas com pequenos flocos de farinha, o chão húmido e pouco acolhedor, os panos sujos debruçados no espaldar das cadeiras e o conforto dos meus tempos de infância.
O barulho demasiado silencioso levava-me a acreditar que aquela casa estava cansada de albergar seres como eu.
Avancei por um arco de estilo barroco, esculpido durante horas por grandiosos artistas e deformado em pouco tempo por inúmeras traças que habitavam aquela majestosa casa. Deparei com uma vasta sala de estar.
O cheiro entre as divisões mudara completamente. Em vez do aroma de pão a cozer, agora enchia o ar a fragrância de charutos caros, assim como o perfume importado de Paris! À frente do arco encontrava-se uma lareira poeirenta, que deixava escapar uma sensação de calor, e por cima dela, um enorme retrato de família pintado à mão, pouco nítido, mas no qual conseguia identificar cinco pessoas: o pai com ar austero, a mãe com feições delicadas e três jovens filhas no auge das suas vidas com vestidos perfeitamente engomados.
Do lado direito da lareira estava um janelão com cortinados de veludo vermelho, que dava para a parte da frente da moradia. Do esquerdo uma enorme estante com livros antigos e sujos, mas em bom estado. Na parede em frente desta mini-biblioteca particular encontravam-se duas poltronas separadas por uma pequena cómoda com um tapete feito à mão, a seus pés.
As poltronas fascinaram-me particularmente. Estavam intactas e a textura dos seus tecidos relembrava-me os tempos de outrora em que os serões eram passados à volta da lareira a ler ou a conversar.
De repente, a enorme porta com vitrais pormenorizadamente desenhados com temas campestres, emoldurados com uma rija e trabalhada madeira abriu-se. Saltei de imediato da máquina do tempo em que a poltrona se tornara e abandonei aquele espaço tão familiar a correr. Atravessei de novo o arco e a porta das traseiras com a velocidade que as minhas quatro patas me concediam e fugi para lá dos arbustos que rodeavam o quintal como um pequeno animal a mergulhar numa enorme e densa selva.
Carina Calete, 11.º B
Tudo estava envolvido num infinito silêncio, nem o ventinho tinha coragem de fazer barulho, passando entre as flores e os ramos das árvores. Era de acreditar que naquele profundo silêncio se conseguia ouvir o barulho do bater das asas das borboletas que voavam de uma flor para outra, em todo o campo. Quando era jovem dava-me muito trabalho correr atrás delas e tentar apanhá-las, mas agora prefiro ficar a repousar na minha cama: uma almofada laranja das mais confortáveis. Dormir aqui é a minha actividade favorita. A quinta está deserta, quase abandonada. O sol que chega dá-me a sensação de quentinho e o cheiro das flores ajuda o sono, tanto como o cheiro do leite e das comidinhas que a D. Maria prepara para mim. Não há nada melhor do que o delicado sabor daqueles pratos para acordar bem! E quando acordo o dia já está a acabar, o sol está baixo e pinta o céu de uma gradação de cores que vão do roxo ao rosa, do vermelho ao laranja. E a paisagem parece pintada, as linhas do horizonte estão tão definidas que podia ter sido o meu dono a traçá-las. A atmosfera está tão bonita e tão quieta que só me apetece voltar a dormir.
Zaira Pellin, 11.º A
Tanta leitura entediava-me, afinal a vida não é assim tão perfeita e calma. Quero conhecer o real, a vida apaixonante que está para além dos portões desta quinta.
De repente uma rajada de vento gélido arrepiou-me e fez levantar todo o meu pêlo branco e ao longe ouvia-se um ranger de ferro velho e enferrujado. Ao seguir o som reparei que um dos portões se abria. Corri com toda a minha garra enquanto um pensamento de liberdade, curiosidade e medo me avassalava. Quando ouvi o estrondo do portão a fechar já me encontrava cá fora, em liberdade.
Percorri durante dias ruas desertas, onde só se avistavam mais flores e ervas e alguns coelhos. Desiludido, sentei-me a pensar que talvez nunca conseguisse conhecer a bela Lisboa cheia de vida e graça de que tanto ouvira falar aos meus donos. Continuei o meu caminho, cansado, com as patas em ferida de tanto correr, de boca seca e estômago colado, até que comecei a ouvir grandes barulhos, barulhos de buzinas, e via luzes intensas, apesar da noite, e sempre o barulho, muito barulho de pessoas conversando e gritando.
Tinha chegado à grande cidade cosmopolita, Lisboa. Estava adorar tudo o que via, os teatros, os cinemas, as lojas, a correria de toda uma vida cheia e agitada.
Uma noite, enquanto seguia um rato que havia encontrado, perdi-me num sítio escuro. Reparei em pessoas estendidas pelo chão e pelos bancos do jardim, sujas, de roupas rasgadas, cabelo despenteado, tapadas por cartões e papéis de jornais. Pensei para mim que ninguém havia de saber o que ali se passava, pois ninguém deixaria ali pessoas daquela idade sozinhas e abandonadas numa noite tão fria e melancólica. Então reparei no mar de pessoas que ali passavam e desviavam o olhar. Aquelas pessoas, de relógio da Timberland, de fato e gravata, com os seus BMW's e Audis que riam e brincavam, mas não eram capazes sequer de olhar. Como podia esperar que se preocupassem?
Joana Pereira, 11.º A

Santa Olávia era para mim o lugar ideal. Permanecia deitado durante o dia na relva verde e fresca à sombra das árvores de frutos que aqui eram abundantes. Não tinha falta de alimento, os pássaros eram abundantes e eu notava-o devido aos seus constantes chilreares, e, de vez em quando, para meu deleite também apanhava uns ratos.
O ar aqui era puro e fresco e o único cheiro existente era o das flores nos canteiros à entrada da casa.
Durante o dia a vida era pacata e eu aproveitava para descansar, mas a noite em Santa Olávia acabava por ser mais animada com a minha procura de gatas que aqui havia em escasso número.
Eu gostava tanto do quintal de Santa Olávia que raramente entrava em casa, apesar dos luxos que lá tinha.
Apenas entrava em casa quando não conseguia caçar e tinha de comer a comida que me davam, que apesar de não ser propriamente saborosa, era melhor do que passar fome, ou então quando queria dormir. E aí sabia que tinha uma cesta de veludo na sala ao pé da lareira, onde eu podia descansar num conforto extremo enquanto era suavemente aquecido pela lareira.
Enfim, a vida em Santa Olávia era simplesmente perfeita.
Pedro Madeira, 11.º A

Estava deitado sobre a relva fresca, mas não conseguia dormir. A abundância de cheiros no ar deixava-me agitado. Resolvi levantar-me e caminhar. Para além de estar um sol quentinho, a relva ainda estava molhada, o que deixava o meu pêlo húmido e fresco. Sabia bem o sol quentinho sobre o meu pêlo comprido.
Sentia o cheiro a papoilas no ar, o cheiro a sol, a água e a vento. Observei o meu reflexo numa pequena poça de água. "Ai, ai, como és lindo, Bonifácio!" Molhei a pata com a minha língua e arranhei o pêlo da minha cabeça. As minhas manchas amarelas estavam mais amarelas que nunca, já para não falar no branco do meu pêlo que estava bastante luzidio.
O vento trouxe-me o cheiro doce e maravilhoso de uma tarte, ainda quentinha, de amora. Inspirei fundo e segui o cheiro. "Como cheira bem!", pensei.
Já era capaz de me imaginar a lambuzar-me naquela deliciosa tarte de amora. Até já tinha aboca cheia de água.
A tarte estava no parapeito da janela a arrefecer. Vá-se lá saber porque é que as pessoas têm o hábito de fazer isso. A casa era alta, pintada de branco sujo. Vinha de lá um cheiro a velho e usado, provavelmente a livros. Deu-me a sensação de estar junto de Afonso.
Ouvi um miar bonito e sensual. Olhei. Os meus olhos ficaram arregalados. À minha frente estava uma gatinha cinzenta, com pêlo comprido. Os olhos dela eram de um azul mais bonito que o das orquídeas. Era alta e esbelta.
"Tarte ou gata? Sem dúvida as duas!"
Saltámos para o parapeito da janela e ambos nos lambuzámos na tarte de amora deliciosa.
Marta Zurrapa, 11.º A
Depois da minha sesta, naquela tarde calma e quente de Primavera, ao acordar sobre aquela cómoda almofada colorida de algodão que se encontrava à sombra da fonte principal da quinta sentia-me bem, satisfeito, mas um pouco preguiçoso. Foi então que senti um aroma diferente no ar, era algo que nunca tinha sentido antes, nem aqui na quinta onde os aromas são agradáveis e sempre surpreendentes. De repente, apoderou-se de mim uma vontade enorme de seguir aquele cheiro. Levantei-me, espreguiçei-me e, pondo cada pata na relva, devagar, sem fazer barulho, debruçei-me sobre o muro das escadas principais da entrada da quinta e os meus olhos maravilharam-se.
Foi a primeira vez que eu, D. Bonifácio de Calatrava, me deparei com uma gata formosa, elegante, com ar sereno como uma praia ao fim da tarde e com um aroma que se assemelhava ao cheiro das flores na Primavera. Aproximei-me para a poder observar melhor. O seu pêlo, branco como a neve, contrastava com os seus olhos negros. Os seus olhos assemelhavam-se a duas grandes pérolas negras que me deixaram encantado. O seu olhar penetrante deixou-me entusiasmado. Por instantes ela parecia uma estrela de cinema, com uma pose extremamente delicada, elegantemente arranjada e com o pêlo brilhante como se tivesse um holofote direccionado para ela. O seu miar soou como uma melodia aos meus ouvidos. A sua voz fina e harmoniosa confirmava a beleza exterior que fazia transparecer.
Aproximei-me ainda mais, com todos os meus sentidos cada vez mais apurados, e toquei-lhe. O seu pêlo era macio como os lençóis de seda da minha almofada.
Convidei-a a entrar e juntos comemos um belo lanche de sabor extraordinário. Talvez esse sabor se devesse ao facto de estar na melhor das companhias.
Ana Nascimento, 11.º A